Resenha: O oceano no fim do caminho (Neil Gaiman)

sexta-feira, 26 de julho de 2013


Edição: 1
Editora: Intrínseca
ISBN: 9788580573688
Ano: 2013
Páginas: 208
Tradutor: Renata Pettengill

Sinopse - O Oceano no Fim do Caminho - Neil Gaiman

Foi há quarenta anos, agora ele lembra muito bem. Quando os tempos ficaram difíceis e os pais decidiram que o quarto do alto da escada, que antes era dele, passaria a receber hóspedes. Ele só tinha sete anos. Um dos inquilinos foi o minerador de opala. O homem que certa noite roubou o carro da família e, ali dentro, parado num caminho deserto, cometeu suicídio. O homem cujo ato desesperado despertou forças que jamais deveriam ter sido perturbadas. Forças que não são deste mundo. Um horror primordial, sem controle, que foi libertado e passou a tomar os sonhos e a realidade das pessoas, inclusive os do menino. Ele sabia que os adultos não conseguiriam — e não deveriam — compreender os eventos que se desdobravam tão perto de casa. Sua família, ingenuamente envolvida e usada na batalha, estava em perigo, e somente o menino era capaz de perceber isso. A responsabilidade inescapável de defender seus entes queridos fez com que ele recorresse à única salvação possível: as três mulheres que moravam no fim do caminho. O lugar onde ele viu seu primeiro oceano.

Poucas vezes tive tanta dificuldade em escrever sobre um livro como estou tendo agora. Estou há dias protelando essa resenha. O Oceano no fim do caminho é um livro curto, apenas duzentas e oito páginas, mas tem uma história incrivelmente densa para suas poucas páginas. 

O novo livro do aclamado escritor inglês, Neil Gaiman, trata-se das memórias de um homem de meia idade, que retorna à casa onde viveu quando criança, para um funeral. Ao se aproximar, é atraído para o fim do caminho, para a última casa da rua, onde morava sua melhor - e única - amiga de infância Lettie Hempstock. Uma garota de onze anos muito esperta e dotada de uma singular sabedoria para sua pouca idade, foi com ela que ele dividiu muitos momentos fantásticos (em todos os sentidos da palavra), quando ainda crianças. Lettie afirmava que o lago da fazenda Hempstock era um oceano. E foi a menina quem o ajudou a ver e compreender um mundo fantástico e sombrio. Um mundo além do que nós adultos podemos enxergar, um mundo que só as crianças tem a capacidade de entender. 

Ao mesmo passo que se aproxima da casa de Lettie, as memórias de quando tinha apenas sete anos vão voltando e então tudo começa. É a história de um garoto considerado "estranho" até pelos seus próprios pais, já que ele ama os livros mais do que qualquer coisa. Na época, sua família passava por problemas financeiros e então tiveram que alugar alguns quartos da casa para ajudar nas despesas. Seu antigo quarto, no sótão, foi alugado para um minerador de opala, que em um dia foi encontrado morto dentro do carro da família do garoto, no fim da estrada. Suicídio. Este acontecimento despertou uma entidade maligna de outro mundo, há muito adormecida. E foi por causa desse acontecimento que ele conheceu a menina Lettie, a terceira da geração das mulheres Hempstock. Desde então coisas estranhas vem acontecendo com o nosso protagonista e as pessoas que o cercam. 

Ninguém foi à minha festa de aniversário de sete anos. Havia uma mesa arrumada com gelatinas e pavês, um chapéu de festa ao lado de cada prato e, no meio, um bolo com sete velas. Em cima dele, um livro desenhado com glacê. Minha mãe, que organizara a festa, contou que a moça da confeitaria confessara que eles nunca haviam colocado um livro num bolo de aniversário, e que faziam, para a maioria dos meninos, bolas de futebol ou naves espaciais. Eu fui o primeiro livro dela.

O Oceano no fim do caminho é assustador e nostálgico. Acredito que ele pode ser traduzido em uma palavra: Infância. Mas não se engane, este não é um livro para crianças, apesar de a história ser narrada pela perspectiva de uma criança. Isso explica o não aprofundamento nas descrições e detalhes da história. Esta fábula está repleta de amor, amizade, perdas, decepção, tristeza, medo, dor, etc. E existem monstros, aqueles monstros que nascem à partir dos desígnios das pessoas. 

Adultos seguem caminhos. Crianças exploram. Os adultos ficam satisfeitos por seguir o mesmo trajeto, centenas de vezes, ou milhares; talvez nunca lhes ocorra pisar fora desses caminhos, rastejar por baixo dos rododendros, encontrar os vãos entre as cercas. 

Uma curiosidade: Em momento nenhum Gaiman nomeia o protagonista, intencionalmente, óbvio, para que cada leitor se identifique com ele. Ao ler este livro, podemos ver o mundo através dos olhos de uma criança, e enxergar realmente como elas (as crianças) o veem: o mundo não é seguro, existe maldade e os adultos nem sempre vão conseguir protegê-las, etc. Entre muitas situações, lembrei muito da minha própria infância. Isso me fez pensar - e lembrar - o quão reais são os monstros e a magia da nossa infância? Crescemos e esquecemos de todas as coisas inexplicáveis em que acreditávamos quando éramos crianças. O final é triste, mas é perfeito para a história. É um livro para reler de tempos em tempos, acredito que quanto mais velhos ficamos, mais interessante ele vai se tornar. Acredito que é o tipo de livro que cada vez que você ler novamente irá perceber algo que não notara previamente e o amará ainda mais. Recomendo.
Subi para o quarto e me deitei na cama. O lugar na sola do meu pé onde o verme estivera ainda latejava e doía, e agora meu peito também doía. Fui para outro lugar em minha cabeça, para dentro de um livro. Era para onde eu ia sempre que a vida real ficava muito difícil ou muito inflexível. 

11 Comentários:

cristiane disse...

Tenho muita vontade de ler um livro do Neil Gaiman. Já quero ler O Oceano no Fim do Caminho no fim do caminho tem um tempo, o livro me ganhou pela capa e pelo titulo e a cada resenha que leio sinto mais vontade! Adorei que você disse que o livro pode ser traduzido na palavra "infância", preciso ler.

Francine Porfirio disse...

Wow, sua resenha expressou exatamente o que disse no início dela, sobre quão difícil é descrever este livro. Enquanto lia sua opinião, percebia que O Oceano no Fim do Caminho é o tipo de livro que nos perturba. Diria que o motivo disso é o uso exacerbado de arquétipos, algo que está latente em toda a mente humana. Algo que invade nosso íntimo, porque não são as palavras, mas a imagem construída por meio destas palavras que nos faz sentir tamanha emoção numa leitura como essa.
Eu ganhei o livro numa promoção, feliz da vida! :D Logo poderei lê-lo e ter minha própria opinião. Sua resenha só me faz agradecer a chance de conhecer esse livro.

aninha disse...

sabe,não é a primeira resenha sobre esse livro que leio,em que vejo que o livro é melancólico,e remete a infãncia.não aquele conto de fadas colorido com ocasionais dramas,mas a real infãncia com medos,traumas e sensações que não sabemos nomear,só depois que crescemos que sabemos realmente o que é. Neil Gaimam é um gênio,no mundo que ele cria,ele sabe mexer com o leitor. não vejo a hora de ler O Oceano no Fim do Caminho. Parabéns pela resenha Dana!

Pamela Liu disse...

Ainda não li nada do autor, mas tenho na minha estante Lugar nenhum.
Tenho bastante vontade de ler O Oceano no Fim do Caminho, por causa da sua sinopse intrigante e narrativa peculiar, do ponto de vista de uma criança.

Aris disse...

Contando os dias para ler este livro. Desde 1990 sou fã incondicional do Neil Gaiman e já li quase tudo o que ele escreveu ^^

Bj, Aris.

https://twitter.com/arismeire/status/360974134324367361

Danielle CGA Souza disse...

Oi Dana, normalmente não gosto de personagens sem nome, mas nesse caso me parece adequado. Achei a capa muito linda e só tenho lido coisas positivas.
A sua resenha no entanto me despertou ainda mais interesse pelo pouco que mostrou, não sabia que era uma espécie de flashback e gosto muito deste recurso.
Vou tentar ler e conhecer a escrita do autor que tb só vejo elogios.

Bruna Miranda disse...

Ainda não parei para ler Gaiman, mas tua resenha foi tão descritiva que eu fiquei muito curiosa pela história. Todos falam que os livros dele são pesados e bem escritos - do jeito que eu gosto! hahaha

beijos,

Bruna
http://www.umpoucodissoeaquilo.com.br

Vanessa Llona disse...

A capa desse livro já faz a gente viajar, eu achei maravilhosa, e a história parece muito boa, achei bem interessante a curiosidade dele não nomear o protagonista. Gostei muito da ressenha. Bjs

Ana Luiza Silva disse...

Primeiro eu vi a Tati Feltrin falando do livro e agora você! Tem razão, Dana, temos sempre que nos conectar com o passado. Quero o livro urgentementeeee! \o/

Ana Frank disse...

As imagens são tudo de bom o balde, as xícaras de chás, o circulo magico. Quando criança conheci um menino sonhador como o greenboy. Vivenciar este livro é um exercício de criatividade. Emocionante um mundo que poucos podem desfrutar!

Aris disse...

Quando o livro estava chegando ao fim eu já chorava copiosamente. Neil Gaiman é um artista!!!!
Bj, Aris.

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