[Fala Sér(g)io!] - Autores e sua vida e criação literária em cinema

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014




Durante a faculdade, quando ainda cursava letras, certa vez ouvi algo de um professor de literatura – ainda durante os primeiros semestres -, que, por incrível que pareça, nunca mais saiu da minha cabeça. A frase foi mais ou menos assim “biografia do autor em pouco, ou nada, deve ser levada em consideração ao se estudar a criação literária dele”.  Embora ainda um estudante verde, e recém-ingresso nos estudos de análise literária (na época), não pude deixar de pensar imediatamente na frase, e como ela pode modificar a visão do leitor, ou crítico, sobre determinado livro. Por exemplo, é possível dissociar a obra de Raquel de Queiróz, especialmente em O Quinze, de sua biografia, tão marcada pela seca, e por experiências recém-descobertas de uma jovem impetuosa diante da vida? Acredito que não. Da mesma forma, logo me vem a mente uma série de outros autores e, mais do que isso, como sua trajetória de vida pode ter influenciado sobremaneira sua criação lírica. Os problemas que passaram, o ambiente que viveram, as vitórias e derrotas a qual foram submetidos; tudo isso, segundo minha visão de jovem estudante, pareceu impossível de ser separado como propunha na ocasião o citado professor.

 Analisando a questão desse ângulo, podemos afirmar então que, conhecer a biografia de um autor, garante – na grande maioria dos casos -, uma compreensão mais profunda e intrínseca de sua obra escrita. Pois bem, mas devemos concordar também que, fora o caso das biografias, nem sempre é um grande atrativo ao leitor os resumos da vida dos escritores expostos á nós durante todo o processo de educação, por meio dos bons e velhos livros de Português, não é? Eu mesmo, embora lesse vorazmente todos os textos do livro já no primeiro mês de aula, dificilmente parava para saber sobre a data de nascimento e morte do autor que estava apreciando. Em relação à isso, só encontrei um atalho instigador e bem mais emocionante muito tempo depois, através de determinados filmes que tratavam da vida de escritores, deixando em segundo plano suas histórias, e focando no ser humano por trás da criação artística – e é sobre isso que falaremos de forma mais profunda hoje aqui.

O assunto me veio à mente em uma madrugada bem recente quando, trocando despretensiosamente de canal na televisão, descobri, para minha grande surpresa, o filme Terra das Sombras (Shadowland, no original). Vocês não imaginam minha cara, quando descobri que o personagem principal do filme era nada menos de C.S. Lewis, autor de As Crônicas de Nárnia! Imediatamente todos os fatores que lhes expus acima me vieram á mente, e não pude deixar de escrever sobre, até mesmo para indicar alguns filmes, e enaltecer a importância deles não só para o cinema, mas para a compreensão do que é literatura em suas mais profundas entranhas. Assistindo ao citado filme, já comecei a pensar em outros que tinham o mesmo objetivo – tratar da vida dos autores, e não de suas obras literárias, e pude pensar com mais carinho em outros dois filmes que, para mim, sintetizam perfeitamente o que é ser um escritor apesar de tudo. E sobre eles falaremos abaixo com mais detalhes.

O primeiro filme que gostaria de tratar é “Em Busca da Terra do Nunca” (2004). Produzido por uma parceria britânico-americana, o filme conta uma parte da vida do autor e teatrólogo Sir James Matthew Barrie, escritor do clássico da literatura universal Peter Pan. Aqui, percebemos como a relação entre vivência e criação artística é influenciada, sobremaneira, pelas experiências de vida do autor. Na obra, é exposta uma fase difícil de James Barrie; já conhecido autor de teatro, ele não conseguia mais cativar o público com suas peças, e contestava sua capacidade de criação. Em determinado momento, ele conhece uma senhora viúva e, por meio da convivência com os filhos dela, ele reconquista a inspiração, que o levam a criar sua obra prima, conhecida até hoje por gerações de leitores no mundo inteiro. O filme é um exemplo claro de como o cinema pode ser sublime, e intrínseco ao mesmo tempo, ao direcionar o olhar do expectador não para o livro, mas para o processo que levou o escritor á criá-lo; algo que certamente enriquece muito a experiência de leitura, e de vida, do leitor.

Seguindo o mesmo propósito do filme acima, temos “Magia Além das Palavras” (2011), que conta de maneira competente e singela a trajetória de J.K. Rowling, indo de sua infância até a publicação do primeiro livro, o Best-seller mundial Harry Potter e a Pedra Filosofal. Produção independente, o filme não foi autorizado pela autora, e não passou pelo cinema; sendo transmitido direto na televisão. O cerne desta produção, porém, difere um pouco do filme anterior, embora em um âmbito geral seja bem próximo á ele. O enredo da obra se concentra mais nos conflitos da autora, desde pequena, e como a literatura foi uma companheira fiel, e abrasadora, em meio á tantos problemas e dificuldades enfrentados por ela até a conquista do sucesso literário. Desta forma, a criação da série Harry Potter é deixada em segundo plano, expondo na superfície do roteiro o relacionamento problemático da autora com seu pai, o casamento fracassado que teve durante sua estadia em Portugal, e a pobreza e depressão que enfrentou em sua volta à Inglaterra. Sem dúvida, lições valiosíssimas para qualquer um que se ache desfavorecido pelo destino. Verdade que em essência, estas dificuldades podem não ter constituído o cerne da obra da autora (pelo menos em termos gerais), mas certamente elas ajudaram, e muito, na formação de diversos conceitos, e no relacionamento de Rowling com a vida, e com os admiradores de sua obra escrita.

E, por fim, não poderíamos de abordar um pouco melhor o filme que inspirou esse post: “Terra das Sombras” (1993). Ao contrário dos anteriores, vemos aqui não um autor buscando ser publicado, ou tentando renovar sua criação. O filme nos apresenta um C.S. Lewis já consagrado, e reconhecido mundialmente não só por sua obra literária, mas também pelo trabalho como acadêmico em Oxford – a mais conceituada universidade do mundo. Vivendo uma existência simples, dedicada aos alunos, a literatura e ao irmão, o escritor de repente se vê envolvido com uma jovem poetisa americana chamada Joy Gresham, e seu filho que é fã do catedrático. A partir desse relacionamento de amizade, inicialmente, e amor depois, o consagrado autor é retirado de sua pacífica convivência, para enfrentar desafios que jamais imaginou ter que passar já na fase avançada de sua vida. Neste caso, a experiência do autor no trecho específico relatado no filme, não consiste em influencia para sua obra literária. No entanto, ele nos ajuda, e muito, a perceber melhor o quanto da personalidade do escritor está inserida em sua obra de fantasia. “Terra das Sombras” pinta em cores suaves e bem definidas a devoção religiosa de Lewis, seu temperamento justo e ameno, e a firmeza de seus ideais – reconhecer estes aspectos no personagem Aslam, de As Crônicas de Nárnia, nada mais consiste em enxergar melhor a alma de seu criador.

Bom, ficamos apenas em três exemplos, diversos em suas semelhanças, que representam bem a essência do assunto retratado aqui. Cada um destes filmes explora de uma forma diferente, embora competente, a relação da vida com a criação literária de cada autor. Sem dúvida constituem rico retrato de quantos sentimentos, vivências e emoções se escondem por trás das frias e burocráticas linhas de um livro. A meu ver, uma das formas mais completas, e complexas, de se explorar a fluidez e construção lírica contida em literatura. 

10 Comentários:

Rogério Castelo disse...

E a historia entre Tolkien e Lewis? Vai mesmo pro cinema?

Sérgio Magalhães disse...

Quem dera cara, seria muito bom!!

Tamiris Leitão disse...

Dos três que você me mostrou eu assisti Em Busca da Terra do Nunca. O que eu achei bem fofo, porque Em Busca da Terra do Nunca... Sir James Mathew... Viúva.... Petter Pan.... Terra do Nunca.... KK Entendeu né Sergio? No dia que minha mãe disse que a gente ia assistir esse filme, eu fiquei meio assim porque não entendia coisa com coisa... mas depois eu me saquei, e vi que fofura. kk


Parabéns pela observação, agora eu sei porque você escreve tão bem e de uma forma tão incrível. bjs.

Jéssica . disse...

Acho bem legal descobri um pouco mais sobre autores que gostamos, tanto por livro como também por filme, ainda não assisti nenhum dos filmes citados, mas já assisti outros do gênero...

Sérgio Magalhães disse...

Muito obrigado pelos elogios Tamiris, fico até sem jeito. Obrigado demais por ler, e pelas observações tão carinhosas acerca do post.


Bjs

nathay ferrer disse...

Você tocou num ponto que fazendo uma reflexão observei que nunca dei a mínima atenção. Essa analise sobre a trajetória dos autores e suas influências em sua obra deveria sempre ser feita, afinal, através dela podemos entender melhor aquela determinada obra.
Os três exemplos que você trouxe não sei se são bons pois não os vi, mais outro que posso acrescentar é o filme Amor e inocência que conta a história da grande escritora inglesa Jane Austen e que de certa forma retrata muito bem a sociedade em que esta viveu e descreveu em suas obras como Orgulho e Preconceito, Persuasão,etc.

E novamente parabéns pelo texto, muito bem feito.
Beijos!!

Sérgio Magalhães disse...

Poxa, não conhecia o filme sobre Jane Austen, muito obrigado pela dica Nathay. Vou assistir, com toda a certeza.


Beijos

JessicaLisboa disse...

Primeira vez que vejo essa coluna e ja gostei dela, muito bom!!




xx

Nardonio Alves disse...

Achei o tema desse post bem interessante. Confesso que, na época em que fazia Ensino Médio, estudar vida e obra dos autores, não me agradava em nada. Conforme o tempo foi passando, passei a compreender que é muito importante termos essas informações. Desses três filmes, não cheguei a assistir nenhum, mas já assisti filmes que retratavam artistas de outras áreas.


@_Dom_Dom

Rossana Moraes disse...

Ahh, eu adoro esses tipos de filme que nos mostram sobre os autores!
Espero poder assistir a esses que você indicou, porque não vi nenhum deles até agora.

Postar um comentário

Ficarei muito feliz se você me der a honra de ter o seu comentário aqui no meu blog. O blog sobrevive dos seus comentários, seja legal, comente nos blogs que visita! :D