[Fala Sér(g)io!] - Ler ou Viver a Realidade?!

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014



Há pouco tempo me peguei pensando sobre uma frase que li de uma amiga leitora, e que também escreve crítica literária, a respeito de sua relação com os livros e a leitura. Em seu texto, ela afirma ter com as obras literárias uma relação que a conecta de uma forma ainda mais especial com a vida, mas que no exato momento em que escrevia o relato em questão, teria abdicado de suas leituras em favor de viver, por conta própria, as experiências que a vida lhe proporcionou naquele momento. Pois bem, refletindo sobre a frase acima, me peguei pensando até que ponto a vivência literária, ou o prazer da leitura, pode privar quem lê de experiências reais em detrimento do tempo gasto com a dedicação aos livros. Meu pensamento em relação à questão não foi em vão, porém. Em casa, já ouvi muitas afirmações positivas, e negativas (acredite se quiser), em relação à minha dedicação à leitura. Uma delas se referia justamente à questão levantada pela afirmação acima, algo como “larga esse livro e vai passear, conhecer gente nova”. Antes que você pense que eu sou um viciado em leitura, ou um ermitão com fortes tendências bibliográficas, afirmo que sempre namorei, saí, conheci novos lugares, pessoas, exerci atividades como qualquer pessoa razoavelmente social.

Acontece que, desde que descobri o prazer da leitura, especialmente literária, tenho sim dedicado sempre um tempo bem especial à atividade, e não acredito que ela tenha me privado, em momento algum, de qualquer experiência que poderia ter tido se me abstivesse dela – respeito quem tem uma visão contrária, afinal quem melhor que a pessoa para saber o que é melhor para ela, não é? – Mas afirmar que a literatura, de certa forma, priva o leitor da vida, acho uma afirmação deveras incoerente. Primeiro que, a leitura, como afirma teórico que me foge agora à lembrança, “é a coisa mais importante entre as menos importantes”. Desta forma, podemos dizer que, tendo o ser humano a necessidade de realizar atividades que não sejam propriamente fundamentais para a vida, como trabalhar, se alimentar, reproduzir, pode sim a leitura ser tomada como exercício fundamental para a formação crítico-social do indivíduo, em vários aspectos. Claro, não estou com tudo isso querendo construir a ideia de ser a literatura uma experiência mais rica que a vida real, longe disso; só não quero me abster da discussão que afirma ser a literatura uma fuga da realidade, sendo ela por seu próprio conceito intrínseco, uma poderosa aliada desta. Isso, porque quem lê, e vive tudo o que oferece seu meio, tem uma experiência infinitamente mais rica, e percebe em um sentido bem mais amplo, nuances da experiência humana que os não leitores podem nunca ter contato.    
Sobre este fato, afirma o renomado teórico Afrânio Coutinho “A literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real, é a realidade recriada através do espírito do artista e retransmitida através da língua para as formas, que são os gêneros, e com os quais ela torna corpo e nova realidade. Passa, então (o leitor) a viver outra vida, autônoma, independente do autor, e da experiência de realidade de onde proveio. Os fatos que lhe deram às vezes, origem perderam a realidade primitiva, adquiriram outra, graças à imaginação do artista. São agora de outra natureza, diferentes dos fatos naturais objetivados pela ciência ou pela história ou pelo social”.
A leitura como aliada da vivência do cotidiano...
Nesse sentido, a leitura como vivência serve de complemento às experiências reais, mas que em nada atrapalham, ou constituem obstáculo, para a aquisição de novos conhecimentos, amizades ou amores. Pelo contrário, só a enriquece, aprimorando a mente do leitor e o preparando para as mais difíceis relações a que poderá ser submetido, a humana. Claro que com isso, não objetivo aqui também estabelecer um padrão. Nada mais rico e específico que a experiência pessoal. Retomando as palavras de Coutinho “O artista cria ou recria um mundo de verdades que não são mensuráveis pelos mesmos padrões das verdades fatuais. Os fatos que manipulam não tem comparação com os da realidade concreta. São as verdades humanas gerais, que traduzem antes um sentimento de experiência, uma compreensão e um julgamento das coisas humanas, um sentido da vida, e que fornecem um retrato vivo e insinuante da vida, o qual sugere antes que esgote o quadro”. Ou seja, embora pinte um quadro global das vivencias possíveis ao leitor, é raro conceituar a experiência pessoal que justifique o abandono da leitura em detrimento da realidade, denominando a primeira um empecilho.
Novamente citando minha experiência pessoal, tive contato com a leitura somente aos 18 anos, pelo menos de forma mais constante e interessada. Até esta data, fui criado na rua, subindo em árvores, com os pés no chão e tomando banho de chuva na rua. Vivi em plenitude o que é ser criança. Mas, pensando hoje se poderia ter me desenvolvido mais se tivesse iniciado minha vida leitura mais cedo, afirmo sem dúvida alguma, com certeza!
O que não podemos deixar de esclarecer com isso é que, embora se deva ler, como prazer e em busca de novos conhecimentos, deve-se viver, desafiar o cotidiano, buscar algo mais. No entanto, não constitui empecilho algum a presença de um livro embaixo de braço, ou na mochila naqueles momentos de ócio entre um compromisso e outro. Muito pelo contrário, difícil pensar em algo mais enriquecedor para a vida. Assim como finaliza o próprio Coutinho “A Literatura é, assim, parte da vida, não se admitindo possa haver conflito entre uma ou outra, através das obras literárias, tomamos contato com a vida, nas suas verdades eternas, comuns a todos os homens e lugares, porque são as verdades da mesma condição humana”.

11 Comentários:

Rossana Moraes disse...

Eu já me peguei pensando em algumas questões dessa! Eu não sou uma leitora assídua, e assim como você, eu comecei a ler aos 18 anos e eu tenho 19, então dá pra ver que isso faz pouquíssimo tempo, (leio muito devagar ainda :$) kkk
Mas mesmo depois que comecei a leitura eu nunca deixo minha vida de lado, vivo normal, mesmo antes de eu ter começado a ler, vivo a realidade.
Mas amo viajar com os livros sempre que dá *-* kkk

Nardonio Alves disse...

Na minha opinião tudo em excesso é prejudicial. A partir do momento em que uma pessoa deixa de sair, viver novas experiências e conhecer pessoas novas, para ficar em casa lendo, acho que essa pessoa deveria rever seus conceitos. Assim como ser "vida louca" também não é lá muito saudável. O negócio é conseguir equilibrar bem a balança.

@_Dom_Dom

Tamiris Leitão disse...

Sergio, acho que você é a única pessoa que consegue me fazer ler uma coluna desse tamanho !! kkkk E diga-se de passagem, amar. Tenho o mesmo pensamento que você. Sei que a leitura enriquece, e que não atrapalha vida de ninguém. Tenho base por mim: Comecei com o meu vício em leitura aos 14 anos (estou completando vinte dia oito), e nem por isso deixei de sair, curtir ou qualquer coisa que um adolescente dito como "normal" faz. Porém, passei um ano em "recesso" a esse mundo, e não existe outra ação minha que eu mais me arrependa. Creio que nesse meio tempo, eu parei de evoluir. Não biologicamente, mas em meu consciente. Foi nesse meio tempo que eu perdi algo que conquistei nos livros, que era a percepção e a inocência. E sei o quanto a leitura pode nos tornar melhor. Mas concordo com você quando diz que viver um lado não o priva de viver o outro, no caso Ler versus Se Divertir. Acho que existem até formas de conciliar os dois, e fazer deles momentos harmônicos e gostosos. Como ler em um piquenique, ou qualquer coisa do gênero. Parabéns pelo Fala Ser(g)io dessa vez, ficou incrível.

Beijos

Sérgio Magalhães disse...

Bacana Rossana. O texto é bem uma extensão da frase, a literatura não o afasta da realidade, mas o ajuda a compreendê-la melhor. :)

Sérgio Magalhães disse...

Bem isso mesmo Nardônio. Acho que o livro é um companheiro, excelente, mas deve estar em paralelo com uma vida bem vivida, e cheia de experiências enriquecedoras.

Sérgio Magalhães disse...

Poxa, muito obrigado mesmo pelas suas palavras gentis, e por seu comentário tão rico. Gostei muito, e li algumas vezes, rsrsrs.

Lais Lucena disse...

Eu nunca parei para pensar o quanto isso é verdade. Não que o hábito de leitura seja prejudicial, mas pelo simples fato de, em excesso, te privar de certos prazeres da vida. Faz uns 3 anos que sou leitora assídua [e não me arrependo mesmo disso], e já tive momentos em que deixei de sair com amigos ou ir para o cinema para saber o final de um determinado livro [disso eu me arrependo~ rs]. Logo que percebi a minha atitude inadequada, revi meus conceitos e percebi que ser leitora não é apenas viver para a leitura. Como você disse, ''o livro é um companheiro, excelente, mas deve estar paralelo com uma vida bem vivida, e cheia de experiências enriquecedoras''.

Parabéns pelo [Fala Sér(g)io!].Está cada vez melhor (:

Sérgio Magalhães disse...

Poxa, obrigado Lais. Fico feliz que o texto tenha levado à essa reflexão. O Objetivo é esse mesmo. Abraço

aninha disse...

leio desde que me entendo de gente, ler é sim uma das coisas que mais gosto de fazer, nunca a leitura me impediu da fazer nada do que gosto. pelo contrário. tudo demais é veneno. exagero não é bom em nada. na minha humilde opinião, em tudo que se faz na vida, temos que acrescentar e não priorizar exageradamente. gostei do texto, não deixa de ser um alerta válido =)

nathay ferrer disse...

Uma palavra define essa relação da leitura X realidade: equilíbrio. Ambos possuem um poder de te dar algo que a vida sempre te cobra com o passar do tempo, experiência. É por isso que a leitura NÃO é a minha vida, faz PARTE da minha vida e acredito que é o que ela deve ser.

P.S. Confesso que existem momentos na minha vida que me fazem "fugir" da realidade nos livros, já que às vezes, o real é duro demais. :-(

Ycaro Santana disse...

As questões abordadas fazem parte de um questionário que sempre fico fazendo a minha mente. O prazer da leitura é uma experiência sensacional, mas nada de gastar o seu tempo todo com a cara em seus livros. Tente algo mais, uma coisa nova, ou algo que goste muito. nunca viva na mesmice !

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