Resenha: A Máquina de Madeira (Miguel Sanches Neto)

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Editora: Companhia das Letras
ISBN: 978-85-359-2192-2
Ano: 2012
Páginas: 245
R$ 36,00

Uma enorme máquina taquigráfica chega ao Rio, vinda numa embarcação do Recife. Quem acompanha o desembarque é seu criador, o padre Francisco João de Azevedo. A máquina é uma das revoluções do século XIX. Com ela, sermões e discursos poderão ser transcritos com agilidade até então desconhecida, como que num registro do próprio progresso brasileiro. É um momento de ebulição nas ciências nacionais. Dezenas de inventores se agrupam no prédio da Exposição Universal, que receberá a visita do Imperador D. Pedro II e de investidores do mundo todo. Nas ruas, a expectativa de um salto industrial e econômico para o Brasil. Neste romance histórico, o escritor Miguel Sanches Neto usa a trajetória do padre Azevedo, precursor da máquina de escrever, para narrar a formação da identidade de um país. 

Existem romances que visam o exterior, uma jornada, um cenário. Nestes, o cerne de toda a narração se dá tão fortemente no ambiente descrito, quanto na transformação psicológica do personagem principal. Porém, este não é o caso aqui – muito pelo contrário – embora situe nosso humilde e discreto protagonista em um ambiente de muitas riquezas (O Reinado de D. Pedro II) culturais e arquitetônicas, o enredo arrasta a lírica cada vez mais para o interior simples, e deveras complexo por vezes, do padre Francisco João de Azevedo. São as múltiplas faces deste personagem que permeiam toda a angústia, frustração e vivencia dele ao longo de todo o livro. Padre, professor, órfão e inventor, Francisco é tão heterogêneo quanto qualquer ser humano da vida real, e isso o traz em essência para a compreensão no leitor que acompanha, cada vez mais sedento, as desventuras do pobre sacerdote.


Passado no período entre 1860 e 1880 no Rio de Janeiro, Recife e João Pessoa, o livro faz, ademais os acontecimentos da vida do padre, que servem de essência a obra, uma pintura fluida e fascinante sobre os costumes da corte nacional (Rio), e de suas cidades periféricas (Recife e João Pessoa). No Rio, a estadia do bom padre para demonstrar sua invenção na 1ª Exposição Nacional Imperial o revela costumes e frustrações típicas do centro político brasileiro à época. As tradicionais ruas, como a do Ouvidor, e os prédios históricos, servem de pano de fundo para os dilemas e desafios enfrentados por Francisco para conquistar o devido reconhecimento por seu invento inovador, e de grande importância para a nação (pelo menos em sua mente). Figuras históricas como o próprio D. Pedro II e o Barão de Mauá são retratados no romance, e enaltecem ainda mais a boa descrição da época, feita pelo autor. São bem retratadas aqui as intrigas palacianas, articulações políticas e econômicas, e a estagnação de nossas ciências e tecnologia, motivada por desejos mesquinhos e egocêntricos.

Apontado como forte concorrente pelos prêmios literários São Paulo, e Portugal Telecom, em 2013, o livro ainda apresenta ao leitor uma construção literária apurada, narrando em 3ª pessoa, em sua maioria, o drama do padre em tempos cronológicos diversos. Entrecortado a narração, existem trechos escritos pelo próprio padre, como se o tivesse redigido na famigerada máquina tipográfica; algo simples mais que imerge ainda mais o leitor na obra, e enriquece a escrita apurada e versátil do autor. Desta forma, acompanhamos a jornada do padre/inventor inicialmente em sua ida ao Rio para a tão aguardada exposição, porém, a medida que avançamos nas páginas, vemos momentos do passado e do futuro do protagonista, e que demonstram em cruéis argumentos como a engenhosidade pode ser transformada em mediocridade por governantes, ou uma população, que não sabe enxergar onde realmente se está a verdadeira importância para os avanços de uma nação. Como no caso da descrição sobre a política, transcrita abaixo:

A política acaba com tudo que temos de melhor. A política nos faz ansiosos de glória ou criminosos. Ela mistura vitória e vergonha. Rouba-nos ou nos faz roubar. Mata o melhor em nós e daí nos mata.

Como admirador confesso deste tipo de romance - tão pouco representado no Brasil, embora com fortíssimos representantes -, devo dizer que o livro retrata o que há de melhor em termos da fascinante mistura entre ficção e história em literatura. Sua abordagem dramática com boas pitadas de humor, concede ao livro um tom bem particular, e que foge do estereótipo caricatural conferido especialmente á esse período da História do Brasil. Verdade que não temos aqui um humor tão presente quanto em O Xangô de Baker Street (Companhia das Letras), de Jô Soares por exemplo, mas as descrições de locais e costumes são bem parecidos, por estarem as duas obras no mesmo período cronológico. O livro ainda revela os tradicionais contrastes, que estão presentes desde a fundação de nosso país, e persistem com grande força até hoje: o Exótico versus moderno, ciência versus religião, pobreza versus ostentação, são apenas algumas destas nuances contraditórias que formam a riqueza lírica em A Máquina de Madeira.

16 Comentários:

Rogério Castelo disse...

Tons de humor no meio de um livro que acontece no passado histórico brasileiro? Fiquei curioso, parece interessante. Parabéns pela iniciativa Sérgio!

Sérgio Magalhães disse...

Valeu Rogério! É bem bacana mesmo o livro. Recomendo :)

nathay ferrer disse...

Cara gostei de sua resenha, foi construída de uma maneira bem peculiar e diferente do que estamos acostumados a ver pelos blogs. Achei super curioso a história desse livro, essa mistura da ficção com esse período da história de nosso país é maravilhoso, pena que não é tão explorado por outros autores nacionais. :-(

Tamiris Leitão disse...

Não gostei muito da história do livro, não me atraiu, porém adorei a forma como você resenhou o próprio. Você interage com o livro, e isso é uma coisa positiva em resenhas. Mesmo não fazendo o meu estilo, se o livro aparecer para mim, não exitarei em ler, é claro. Só julgo um livro após sua leitura.


Enfim, parabéns pela resenha. Esperamos por mais.

Sérgio Magalhães disse...

Obrigado Nathay, fico imensamente feliz com os elogios, o que me incentiva bastante a continuar fazendo crítica/resenhas literárias.


Abraço

Sérgio Magalhães disse...

Poxa Tamiris, fiquei muito feliz com suas palavras, obrigado. Que bom que consegui passar um pouco da essência do livro na resenha. Dê uma chance à ele, é bem provável que goste.


Abraço

aninha disse...

sem dúvida é um livro interessante. a história contada em uma época de muita pompa, um padre inventor deve ter enfrentado muita coisa. percebi que é um livro cheio de detalhes, o autor dá um equilíbrio importante nos personagens e na situação vivida. aparecendo oportunidade, eu leio com certeza =)

Jack Moura disse...

geralmente nao consigo ler livros de epoca, mas eu nunca li um livro de epoca que se passasse no Brasil e que fosse de literatura nacional!! quem sabe eu nao prefira os livros brasileiros aos americanos qndo se trata da epoca antiga!! vou ler e ver oq acho ;)

Mallu Marinho disse...

Adoro livros que tenham como plano de fundo algum momento histórico marcante. Sua resenha me deixou com aquela vontadezinha de quero mais, sabe? Sou bem curiosa a História do Brasil, adoro ler literatura ficcional que tenha base em fatos reais. Entrou para os meus desejados.

Tamiris Leitão disse...

:D

Sérgio Magalhães disse...

Dê uma chance Jack, se não a esse, á algum outro citado no texto. Não vai se arrepender.

Sérgio Magalhães disse...

Bacana Mallu. Também me interesso muito por livros que façam esta aliança entre ficção e história. Espero que goste das leituras indicadas.


Abraço

Lais Lucena disse...

Gente, adoro quando o livro tem humor envolvido, e ainda retratando o passado brasileiro! Essa história me atraiu por completo. A priori não tinha curtido a capa, o que me levaria a não gostar da temática, mas foi totalmente o contrário. Parabéns pela resenha, e quero mais (:

Ycaro Santana disse...

Curioso com o livro, apesar de envolver política achei a sinopse bem bacana e disponível para a leitura!

Nardonio Alves disse...

Particularmente, também gosto bastante dessa mistura de ficção com História, desde que ela seja muito bem feita. Pelo que percebi, esse livro é um belo exemplar dessa mistura, e ainda possui alguns elementos que gosto, como um pouquinho de humor, por exemplo. Vou ver se conseguirei lê-lo assim que minha listinha diminuir um pouco.

@_Dom_Dom

Rossana Moraes disse...

Pelo título deste livro eu não imaginaria que ele é um romance! kkkk
Tenho que confessar que curto romances com pitadinhas de humor, e esse me faz ter vontade de ler este livro.

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