Resenha: O haicai das palavras perdidas (Andrés Pascual)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Edição: 1
Editora: Record
ISBN: 9788501098269
Ano: 2013
Páginas: 430
Em meio à Segunda Guerra Mundial, Kazuo, um menino holandês que vive no Japão, e Junko, a bela filha de uma preparadora de arranjos florais, encontram-se diariamente no alto de uma colina em Nagasaki. Lá, espiam um campo de prisioneiros e, em segredo, alimentam a paixão que sentem um pelo outro. Quando ela propõe um jogo — levar quatro haicais ao longo de quatro dias para lerem juntos —, Kazuo sabe que o último poema revelará o amor que se esconde no coração de sua amada. No entanto, pouco antes do quarto encontro, a bomba atômica cai sobre a cidade. Mas o que parece ser um final trágico é apenas o começo de uma história de amor capaz de atravessar gerações.

Depois de uma ressaca literária (que não foi brincadeira), O haicai das palavras perdidas me veio como uma luz no fim do túnel. Quando o havia pedido, meses atrás, achei que, pela demora, o livro não iria mais chegar e sei lá, tinha sido perdido pelos Correios. Porém, como um milagre, ele apareceu na minha vida e desde a primeira folheada em suas páginas, me entreguei à história.


Com paralelos entre a "atualidade" (2011) e o passado (1945), Andrés Pascual conseguiu construir uma narrativa coerente e apaixonante. Embora passados 60 anos, a Tóquio dos dias "atuais" - sim, aspas, porque estamos três anos á frente da época da história - ainda é sensível no que se diz a qualquer tipo de alusão à energia atômica, e a cada parágrafo somos lembrados disso. Tanto o autor como o personagem Emilian não nos deixam esquecer isso. E Andrés também conseguiu fazer a reconstrução do exato momento da queda das bombas em Nagasaki, no dia 9 de agosto de 1945. Ainda procuro palavras para descrever a perfeição do trabalho do autor em descrever o dia a dia pós-bombardeio, as emoções a cada ponto final, os sentimentos de cada personagem...

Durante a leitura, lembrei de um livro que li há um ano, chamado A chave de Sarah, da Tatiana de Rosnay, que utiliza deste mesmo recurso - os paralelos entre uma época passada e o presente -, também incluindo a Segunda Guerra como plano de fundo, porém com o ponto de vista francês. Sou apaixonada pelos dois livros, tanto a Chave como o Haicai, mas vi um diferencial neste último e mais abaixo lhe explico porquê. Recomendo a leitura d'A chave de Sarah, é um lindo livro.

A árdua pesquisa sobre energia atômica, seus benefícios e malefícios, e o impacto social que vem com seu uso, tudo isso pode ser percebido durante a leitura. A história também nos situa muito bem ambientalmente com detalhadas descrições do funcionamento e decoração das locações tanto suíças como japonesas. Uma leitura deliciosa, como vi poucas vezes.

O relacionamento de Kazuo e Junko, na época do bombardeio, é lindo. Antes de tudo, os dois trocavam haicais, poemas japoneses minúsculos, com o intuito de simbolizar a brevidade das coisas belas na vida. Tão inocente como poderia ser, onde os dois se encontravam em uma colina em Nagasaki, foi algo que marcou a vida dos dois. Tanto que é o que move a nossa história até 2011, onde Emilian Zäch, um arquiteto suíço, e Mei Morimoto, uma peculiar japonesa, são unidos por esse relacionamento que acabou tão abruptamente como o bombardeio. A cultura e personalidade japonesa é explorada lindamente e a presença dos pequenos textos é algo presente o tempo inteiro durante a narrativa atual.

"Minha mãe diz que os haicais são mais que poemas. Cada um é uma emoção que aparece e em um instante se desvanece, como tudo que é belo na vida. Uma piscadela fugaz que nos mostra a essência das coisas." 

Peço desculpas ao leitor, ou leitora, se o texto lhe pareceu insuficiente, mas vá me dizer que nunca teve aquela sensação de que havia poucas palavras para a quantidade de emoções que você está sentindo? É exatamente isso que eu vivencio agora. Um livro como esses, que causa tantas emoções e que lhe põe não acima dos personagens ou dos lugares, mas sim do lado, compartilhando com eles cada experiência - boa ou ruim, prazerosa ou desgostosa -, com uma escrita encantadora e uma narrativa viciante, deve ser lido por todos! E isso porque não mencionei o fato de - e essa é a minha opinião - não haver tantos livros situados durante a Segunda Guerra Mundial que tenham o ponto de vista do Japão. Pelo menos eu nunca li nenhum antes deste.

Finalizo aqui convidando o leitor a aventurar-se por essas páginas e conhecer um pouco mais sobre a cultura japonesa, que tanto nos tem a ensinar e contribuir. Fique á vontade para sugerir outros títulos com esse gênero de narrativa, com paralelos entre períodos históricos. Boa leitura!