Resenha: O Poder da Espada – A Primeira Lei (Joe Abercrombie)

sexta-feira, 14 de março de 2014

Edição: 1
Editora: Arqueiro
ISBN: 9788580411874
Ano: 2013
Páginas: 480
Tradutor: Alves Calado

Sand dan Glokta é um carrasco implacável a serviço da Inquisição de Sua Majestade. Nas mãos dele, os supostos traidores da Coroa admitem crimes, apontam comparsas e assinam confissões – sejam eles culpados ou não. Por ironia, Glokta é um ex-prisioneiro de guerra que passou dois anos sob tortura. Mas isso nunca teria acontecido se dependesse de Logen Nove Dedos. Ele jamais deixaria um inimigo viver tanto tempo. Só que isso foi antes. Agora ele está decidido a mudar. Não quer ser lembrado apenas por seus feitos cruéis e pelos muitos inimigos que se alegrarão com sua morte. Já a felicidade do jovem e mulherengo Jezal dan Luthar seria alcançar fama e glória vencendo o Campeonato de esgrima, para depois ser recompensado com um alto cargo no governo que lhe permitisse jamais ter um dia de trabalho pesado na vida. Mas há uma guerra iminente e ele pode ser convocado a qualquer momento. Luthar sabe que, nos campos do Norte gelado, o embate segue regras muito menos civilizadas que as do esporte. Enquanto a União mobiliza seus exércitos para combater os inimigos externos, internamente se formam conspirações sanguinárias e um homem se apresenta como o lendário Bayaz, o Primeiro dos Magos, retornando do exílio depois de séculos. Quem quer que ele seja, sua presença tornará as vidas de Glokta, Jezal e Logen muito mais difíceis. Agora a linha que separa o herói do vilão pode ficar tênue demais.


Publicado em 2006 no Reino Unido, e ano passado aqui no Brasil – em edição belíssima da editora Arqueiro, O Poder da Espada é a primeira obra do autor inglês Joe Abercombie á chegar às nossas prateleiras, e não poderia ter chegado com um melhor cartão de visitas. Primeiro livro da trilogia A Primeira Lei, que será precedida pelos títulos Antes da Forca, e Duelo de Reis, a obra apresenta um enredo denso, complexo, sangrento. A trama é descrita com grande competência escrita, e o enredo envolve o leitor desde suas primeiras linhas, mantendo naquele que se aventura pelas páginas do romance, um desejo insaciável pelo avanço gradual de suas páginas, mesmo quando não se tem mais tempo para a leitura. Como bem descrito na sinopse acima, o enredo se divide entre estes três apaixonantes personagens, cinzentos, esféricos, humanos: Glokta é um Inquisidor de sua Majestade; instituição que, embora tenha a mesma alcunha da ordem medieval, não serva á um propósito religioso, mas sim, político. Exímio guerreiro e filho de uma prestigiada família da nobreza, foi capturado durante uma guerra e torturado pelos inimigos por dois anos. Agora, não passa de uma sombra aleijada, e amargurada, do jovem promissor e talentoso de outrora. Frio e objetivo, usa sua própria dor e angústia contra aqueles a que persegue, e cumpre implacavelmente seu nefasto trabalho á serviço da nobreza de seu reino. Igualmente nobre é Jezal, um jovem militar que treina para disputar o mais importante campeonato de esgrima do mundo que, caso vença, pode lhe conferir glórias e prestígio eterno. Arrogante e descompromissado, o espadachim representa bem a futilidade da nobreza de sua época. Por último temos Logen, um bárbaro do norte que já conquistou inúmeras vitórias sangrentas, mas que luta para se acostumar aos trejeitos totalmente alheios que encontra na capital do reino, que visita acompanhando o poderoso mago Bayaz, o maior de sua ordem mágica.

Mapa do Círculo do Mundo, criado pelo autor para ambientar sua trama.
Enquanto o foco narrativo muda de perspectiva, indo de um personagem á outro, somos apresentados ao mundo encantador criado por Abercrombie, por meio de suas lendas e mitos. O cenário, conhecido como Círculo do Mundo, é divido em vários reinos, sendo o principal deles conhecido como A União, tendo como capital a cidade costeira de Adua, onde se passa a maior parte do enredo do livro. Sendo em essência um livro de fantasia medieval, devo informar que ele está bem distante do estilo clássico do gênero, tendo apenas entre suas raças humanos, e uma espécie de “orc” chamada shanka, ao norte do mundo. Ou seja, bem distante da variedade étnica de outras obras, como Eragon, por exemplo. Porém, o que constrói o charme do livro não é seu passado, que devemos dizer, é bem interessante, mas sim a estrutura de suas tramas, focadas em traições, vinganças e ambições desenfreadas. Não espere encontrar nas páginas de O Poder da Espada honra, cavalheirismo ou qualquer sentimento bom – a menos que seja motivado por interesses escusos. Quanto ao mundo, pelo menos na União, a estrutura social é dividida em classes, algo bem próximo do período feudal da própria Terra. Assim, temos uma nobreza em declínio, mais apegada ao status que aos valores e obrigações; uma burguesia rica, e que luta para ter seu lugar elevado na estrutura social, e a plebe, sofrida e desprestigiada como sempre. Em um plano mais amplo, temos a União, que é o conglomerado de reinos mais poderoso do cenário, tendo sua hegemonia ameaçada por bárbaros ao norte, que pretendem formar seu próprio reino, e por um jovem e ambicioso imperador ao sul, que busca resgatar a glória perdida de seu país. Desta forma, há um clima tenso de pré-conflito presente á todo o momento no enredo, e isso influencia, e muito, a ação dos personagens e do cenário como um todo.

Falando agora de forma mais pessoal, me sinto na obrigação de dizer que, como leitor assíduo de obras de fantasia, já me acostumei á certos sensos comuns em relação ao gênero, e sempre me pego ressabiado ao começar mais uma leitura relacionada. E foi da mesma forma com O Poder da Espada. Mesmo tendo recebido algumas indicações bastante confiáveis de amigos sobre a qualidade da obra, receei sobre em que momento iniciar sua leitura, e como me arrependo disso. Logo no prelúdio, percebi o equilíbrio que marca o enredo bem escrito de Abercrombie. As descrições são imersivas, sem exageros comumente atribuídos à fantasia. As cenas de ação empolgam, e aceleram em demasia o ritmo da trama, e a construção de personagens não poderia ser mais competente. Revelando bem aos poucos toda a complexidade das personas ali apresentadas, o autor vai, página à página, envolvendo o leitor em um contexto que, nos primeiros capítulos, se torna impossível de abandonar. Um enredo forte, maduro, e que deixa o leitor angustiado pelos próximos volumes. Recomendo.