Resenha: Dias perfeitos (Raphael Montes)

sexta-feira, 20 de junho de 2014




raphael-montesEdição: 1 
Editora: Companhia das Letras 
ISBN: 9788535924015 
Ano: 2014 
Páginas: 280

Sinopse - Dias Perfeitos - Raphael Montes
Téo é um solitário estudante de medicina que divide seu tempo entre cuidar da mãe paraplégica e examinar cadáveres nas aulas de anatomia. Durante uma festa, ele conhece Clarice, uma jovem de espírito livre que sonha tornar-se roteirista de cinema. Ela está escrevendo um road movie sobre três amigas que viajam em busca de novas experiências. Obcecado por Clarice, Téo quer dissecar a rebeldia daquela menina. Começa, então, uma aproximação doentia que o leva a tomar uma atitude extrema. Passando por cenários oníricos, que incluem um chalé em Teresópolis e uma praia deserta em Ilha Grande, o casal estabelece uma rotina insólita, repleta de tortura psicológica e sordidez. O efeito é perturbador. Téo fala com calma, planeja os atos com frieza e justifica suas atitudes com uma lógica impecável. A capacidade do autor de explorar uma psique doentia é impressionante – e o mergulho psicológico não impede que o livro siga um ritmo eletrizante, repleto de surpresas, digno dos melhores thrillers da atualidade. Dias perfeitos é uma história de amor, sequestro e obsessão. Capaz de manter os personagens em tensão permanente e pródigo em diálogos afiados, Raphael Montes reafirma sua vocação para o suspense e se consolida como um grande talento da nova literatura nacional.


Bem, para começo de conversa eu digo que ainda estou em estado de choque com o final deste livro. Peço que desculpem o fato de eu não conseguir colocar meu raciocínio em ordem ainda. Precisei desabafar com duas amigas antes de começar a escrever esta resenha porque simplesmente esse livro é inacreditável. Incrível e inacreditável. Dias perfeitos é escrito em terceira pessoa, mas focalizado principalmente no ponto de vista - e emoções - do personagem Téo. Então, pega a pipoca aí e vamos nessa!!! 


Téo é estudante de Medicina, mora em um apartamento pequeno com a mãe paraplégica. Ele não é e nunca foi sociável, desde pequeno nunca demonstrou interesse em relações interpessoais. Téo não tem amigos, na verdade sua única amiga é um cadáver, que ele batizou de Gertrudes, em que ele trabalha na aula de anatomia. Com Gertrudes ele pode ser ele mesmo. 

Em uma tarde qualquer, a mãe de Téo pede que ele a leve em um churrasco e ele, eternamente entediado, resolve ir só para evitar conflitos. Lá ele conhece Clarice, que é o seu extremo oposto, uma moça espontânea, extrovertida, impetuosa e cheia de energia. Eles iniciam um papo despretensioso e Téo fica encantado com a moça. Clarice diz a Téo que está escrevendo um roteiro onde três moças saem em uma viagem de carro por algumas cidades do Estado do Rio de Janeiro. Quando ele estava indo embora ela deu-lhe um selinho nos lábios e isso foi o suficiente para despertar em Téo uma louca obsessão por Clarice.

Téo então começa a stalkear  a moça, forçando encontros e conversas telefônicas. Até que algo acontece e ele toma uma atitude extrema, levando-os a seguir o roteiro de Clarice, um Hotel Fazenda em Teresópolis, um motel de beira de estrada e uma praia deserta em Ilha Grande.

Só preciso mostrar a minha cara lendo este livro. Não sei como conseguirei escrever uma resenha livre de spoilers.



Téo é um sociopata. FATO. Ele é uma pessoa extremamente fria, calculista e é tão dissimulado de um jeito que acredita nas próprias mentiras e acha que tudo o que faz é para o bem de Clarice. Cronometrando todos os seus passos e planejando milimetricamente todas as suas atitudes, Téo sequestra Clarice e a leva para um hotel fazenda em Teresópolis. A maneira com que Téo transporta Clarice chama a atenção, ele a transporta numa mala Samsonite. Uma vez no hotel fazenda Téo começa a agir como se fosse namorado de Clarice e seus momentos de devaneio ao planejar um futuro para os dois, onde estão casados e tem filhos, são de arrepiar. Confesso que Téo me deu medo. Raphael Montes me dá medo. Risos. Tanto Téo quanto Clarice são personagens extremamente bem construídos e verossímeis. Clarice tem seus momentos de rebeldia e descontrole, mas tem momentos em que ela dissimula tão bem que eu quase acreditei que ela realmente estava se apaixonando por ele.

O mais impressionante é que Téo acredita veementemente que tudo que faz está certo, que está livrando Clarice de uma vida errada e vários vícios. Ele tenta mostrar que Clarice deve ser grata a tudo que ele está fazendo com/por ela. É assustador. O leitor quase compra as ideias dele, de tão convincente que ele é em seus argumentos. Eu disse QUASE. É perturbador. 

"Durante esses dias, ele havia sido bastante razoável com ela. Quem nunca se apaixonou sem ser correspondido? Quem não gostaria de mostrar que poderia ser diferente, que a história de amor poderia dar certo? Ele apenas fazia o que todos já tinham desejado fazer. Havia criado para si a chance de estar próximo de Clarice, de deixar que ela o conhecesse melhor antes do 'não' definitivo. Era ousado e corajoso. Agora, colhia os frutos da empreitada." Pág. 101

Eles ficam incomunicáveis, somente Téo faz de vez em quando uma ligação ou outra para a própria mãe e para a mãe de Clarice. Alías, uma das poucas coisas que não me convenceu neste livro foi isso. Sempre que eu leio um livro de psicopatas, serial killers ou algo do tipo, eu fico me perguntando como as pessoas (do livro) não desconfiam de certas coisas que para mim são bem óbvias. Consigo encontrar furos na trama e evidências que levariam facilmente à prisão do suspeito. Os personagens, que Raphael Montes criou, se fazem todas as perguntas possíveis que o leitor poderia imaginar e as respondem antes mesmo que possamos questioná-los. Eles pensam em todos os "e se...", "e na hora em que...", "e quando...". Mas no caso da mãe de Clarice não me convenceu, pois mesmo tendo uma filha porra louca como Clarice, que mãe se contentaria com uma ligação por semana - e olhe lá - do “novo namorado” da filha, que ela conheceu não tem um mês e já foram viajar juntos? Sinceramente, se eu fosse mãe dela teria ido até lá para saber que história era essa.

Quando algo inesperado acontece no hotel fazenda eles seguem viagem para Ilha Grande e é lá onde as mais loucas torturas e perversidades são travadas tanto por parte de Téo quanto de Clarice. Há um momento onde ela consegue a confiança dele e vira o jogo, e durante o tempo que Clarice fica no controle, ela consegue ser tão perversa quanto Téo. Raphael Montes trabalhou muito bem o psicológico dos dois personagens. Sociopatas são inabaláveis, disso todos sabemos, porém Clarice despertou algo em Téo que faz com que o rapaz muitas vezes consiga perder as estribeiras e quase leva-o a tomar atitudes extremas. Em muitos momentos Téo quer nos fazer acreditar que ele está se tornando humano, que ele ama Clarice e que juntos eles podem ser felizes, mas é preciso lembrar que sociopatas não são capazes de amar, sentir pena ou remorso. Eles sequer são capazes de SENTIR qualquer coisa que seja. 

A escrita de Raphael Montes tem bastante fluidez e nota-se a severa pesquisa que o autor fez nos termos de medicina e algumas técnicas cirúrgicas. Só acho que talvez a pesquisa em analisar cenas de crimes não tenha sido tão intensa, pois me fiz várias perguntas sobre algumas coisas que aconteceram e não obtive resposta ao longo do livro. Apesar disso a obra não perde o mérito de ser um dos melhores thrillers psicológicos que eu já li. 

O final do livro foi sem dúvida surpreendente. Confesso que esperava algo previsível mas Raphael fez com que houvesse uma reviravolta onde tudo que eu esperava que acontecesse, caísse por terra. Ele fez algo ousado, não deixando a obra cair no "óbvio". Ainda não consegui decidir se gostei ou não do final. Posso dizer que estou em uma relação de Amor x Ódio com este final. Ao mesmo tempo que gostaria de ter o final previsível, acho que seria o politicamente correto a se querer, também estou encantada, assombrada e embasbacada com a ousadia que Raphael Montes teve ao escrever este desfecho. A última frase me arrepiou e em minha opinião, dá margens para uma possível continuação ou simplesmente para que o leitor imagine o que pode acontecer depois.

Recomendo para os fãs do gênero Thriller psicológico e pessoas que gostem de conhecer um pouco melhor a mente de pessoas perturbadas. Tem cenas que são assustadoras, então os leitores mais sensíveis certamente irão jogar o livro longe. Eu adoro livros desse tipo e já li muita coisa do gênero, então estou acostumada às maiores atrocidades em termos de livros, mas confesso que o capítulo 11 me fez ficar assim como na foto abaixo. Enfim, certamente Raphael está entre os melhores escritores nacionais do gênero. Super vale a pena ler Dias Perfeitos. Quem aqui já leu? Por favor, entre em contato comigo pois NECESSITO debater mais sobre esta obra. 


Para quem gostou da resenha e ficou curioso, o Raphael Montes foi ao Jô Soares e você pode conferir a entrevista na íntegra clicando AQUI.

Também tem o booktrailer de Dias Perfeitos:



Até a próxima gente!
Espero os comentários ;)

15 Comentários:

CintiaSimizo disse...

Depois de algumas conversas e de uma resenha tão bem escrita, só me resta comentar que vc me deixou com uma IMENSA vontade de RELER o livro para comentários mais específicos.
Parabéns pela resenha e por surtar com esse livro. =P

Andreana Marques disse...

Gente, que livro é esse senhor? você me deixou com uma vontade imensa de lê-lo e um tanto quanto curiosa também.
Théo já me deu medo só de ler sua resenha, shudhsudhsau mas não me importo, assim que tiver mais tempo, estarei lendo Dias Perfeitos.
Parabéns pela resenha.

Luana Souza disse...

Quando vi a capa achei que o livro seria fofo... ADOREI a resenha e tipo... preciso ler esse livro!

Douglas Fernandes disse...

Adoro livros assim, sou muito fã de livros que mostram a mente humana, sou fã da Agatha e do detetive Hercule Poirot *-*
Ahhh fala série se o livro teve um final surpreendente pra que querer um final previsivel?? nao entendi O.o
foi por isso que o livro nao ganhou 5 estrelas?

Dana Silva disse...

só lendo pra saber Douglas rsrs vc entenderá o que eu quis dizer com 'querer um final previsível' se ler. Não foi por isso que não ganhou 5 estrelas, é que não posso falar sem ser um puuuuta spoiler. Abs

Nardonio Alves disse...

Nossa! Adoro personagens complexos como esses. Esse Téo me parece um nível hard de loucura e ruindade. E o que falar de um livro que é bom da primeira à última página, e ainda tem um final surpreendente?!?! Eu quero ler ele agora mesmo!!!!

@_Dom_Dom

aninha disse...

e agora? quero demais ler esse livro!! pra começo de conversa quebrei a cara com esse livro, vi a capa mas não li sinopse, nunca imaginei que fosse um livro tão intenso! muito interessante ver que o autor conseguiu segurar uma história que tinha tudo pra cair no clichê e fazer essa reviravolta e ter esse final que me deixou tensa!! rs Dana, tem como eu ler o livro e pular o cap 11, fiquei com medo rs. vou fazer de tudo para ler Dias Perfeitos o quanto antes. bj!

Mariana Diaz disse...

Esse livro, esse livro... o_O
Já o li a algumas semanas e também não sei Oq pensar...Não sei se gostei ou não.
Com toda certeza é um mérito pra literatura nacional do gênero, q infelizmente é muito deficiente. :/
E o final?! Q final foi aquele?! @_@

Manu Hitz disse...

Jordana, me encantei com o Raphael quando ele estava divulgando a publicação do livro no Facebook. Achava o cara tão maneiro e aberto... aí ele foi pro Jô e amei. Me ganhou. Mesmo escrevendo algo que tenho muuuito medo, afirmando que não tem piedade nenhuma com os personagens, hahaha... Sou muito medrosa. Um bom thriller psicológico eu encaro, mas são bem poucos que li. Mas este... ah, este, com esta resenha apaixonada que vc fez, já está na minha mira! Até pedi no dia das mães, mas meu marido disse q estava esgotado no dia... Agora me pego querendo este e o primeiro do autor. Vai virar filmeeee! Viu o bate-papo maravilhoso dele com os escritores no youtube? Passo aqui o link, acompanho sempre essas entrevistas.

BEijoooo!

https://www.youtube.com/watch?v=2XUfJnb_MSE

Tamiris Leitão disse...

JORDANA MULHER, O QUE É ISSO ? Eu quando vi a capa do livro nunca imaginei que poderia ser um thriler psicológico . Simplesmente amei por inúmeros motivos.O principal é que eu amo esse gênero, mas os outros motivos são decorrentes da sua resenha. Você fez essa vontade se reproduzir por bipartição inúmeras vezes. Quero muito saber como se desenrola o jeito sociopata de Théo. Juro.


Enfim dana, preciso desse livro.

Érika Rufo disse...

Eu amo livros assim!! Já tinha visto esse livro por aí, mas pela capa nunca imaginaria que se trata de um thriller psicológico, ainda mais um tão bom assim!!!! E fiquei mega curiosa sobre esse final... só lendo mesmo pra saber, né?? Mas enfim, sua resenha me deixou surtando de vontade de ler esse livro!


Beijos!!

Oliveira disse...

Não li esse livro, mas já li resenha dele e foi positiva também. Esses livros psicológicos em que abordam temas como psicopatias prendem muito e ainda mais se bem feito, como parece ser esse. Realmente sua resenha ficou cativante.

Dud's Santos disse...

Thriller psicológico -----> Eu quero, me dê este livro AGORA. SOCORRO. Como um resenha consegue te fazer ficar tão desesperada para ler um livro? RESENHA DO ANO. Acho que nunca li uma resenha que me fizesse ficar tão interessada por um livro igual essa. Eu amo livros que conseguem expor de forma clara, objetiva e criativa o psicológico de um personagem. Estou mais do que ansiosa para adquirir este livro. Virou questão de necessidade ao nível máximo.

Wal Bandeira disse...

Nossa que resenha mais empolgante.
Eu quero ler são muitas resenhas falando muito bem do livro, que estou me coçando de curiosidade.
Eu amo um livro que se passa dentro da cabeça de um sociopata rs, acho que da pra escrever muita coisa neste tema, e tem poucos livros no mercado sobre isso, pretendo ler,
beijos.

Jéssica Maria disse...

Quero ler esse livro desde a primeira vez que vi, tem o enredo muito legal, e essa capa é perfeita demais ok e meio perturbadora mas ainda assim e perfeita .

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