Resenha: O irmão alemão (Chico Buarque)

quarta-feira, 15 de julho de 2015


Resenha: O irmão alemão, de Chico Buarque
Título: O irmão alemão
Autor: Chico Buarque de Holanda
Edição: 1
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 9788535925159
Ano: 2014
Páginas: 240
Sinopse: O irmão alemão conta a história de Francisco de Hollander, ou Ciccio, que, em meio às papeladas de seu pai, acaba encontrando uma carta em alemão. A partir dela, ele descobre a existência de um provável irmão alemão, fruto de uma relação amorosa efêmera que seu pai teve em Berlim, e tenta traçar o suposto destino que o parente teve. Numa narrativa em primeira pessoa, o narrador nos é dado a conhecer através da sua personalidade comparada com a do seu outro irmão, o Mimo, cujo interesse era seduzir menininhas virgens. Ciccio, por sua vez, refugiava-se nas leituras e na inveja que sentia pelo irmão mais velho.

Por mais que haja traços biográficos do autor em O irmão alemão, Chico Buarque não intentou escrever um relato histórico/pessoal. Temos um romance fictício que usa como matéria literária uma memória biográfica aliada a uma criação artística; logo, imaginação, fantasia e divagações fazem parte desse tecido textual.


No entanto, vale ressaltar que a história do suposto “irmão alemão” é verídica: Chico Buarque toma conhecimento dela, quase sem querer, numa conversa com o poeta Vinícus de Moraes e o músico Tom Jobim na casa do também poeta Manuel Bandeira. Este menciona inocentemente “aquele filho alemão do seu pai”. Isso acontece em 1967, quando Chico tinha 22 anos.

Depois de muito tempo, Chico decide conhecer essa passagem da sua vida que, por décadas, não chegou a fazer parte das conversas familiares e que era desconhecida até mesmo pelo seu pai, o historiador e crítico Sérgio Buarque de Holanda (ele não sabia do filho). O cantor e compositor parte para uma pesquisa exaustiva sobre a vida e o paradeiro do garoto.

Assim, Ciccio parece incorporar o autor na sua empreitada. O narrador-personagem, aluno de Letras, sempre procurava, nas coisas do seu pai, bibliófilo e amigo de grandes escritores, livros autografados para impressionar seus professores e colegas de faculdade. Numa dessas “procuras” pretensiosas, Ciccio encontra a carta de Anne Ernest, a namorada que seu pai teve em Berlim, que revelava a existência de um filho do casal. Toda a narrativa situa-se no cenário da ditadura militar aliada ao totalitarismo do regime nazista alemão, o que parece justificar o fato de que as investigações de Ciccio sempre fossem feitas às escondidas. Por mais que o panorama histórico da narrativa e a existência do irmão alemão retratem fatos da vida real, há passagens no livro bastante fantasiosas e com imaginosas transformações do que seria realidade. Isso acontece porque o romance é escrito com base no que poderia ter sido e no que realmente aconteceu.

Parênteses: algo que muito agradou foi a paixão pela leitura, pelos livros, mostrada pelo narrador... causa certa inveja a enorme biblioteca do pai de Ciccio, com mais de vinte mil livros e muitos deles autografados por escritores famosos.

A narrativa tem ritmo – talvez por influência do trabalho musical de Chico –, algumas pinceladas de humor e bastante dinamicidade. É difícil se desvencilhar de um enredo permeado de surpresas e achados. Por outro lado, o leitor mais jovem precisa estar disposto a reconstruir uma São Paulo – cidade onde se desenrola a história – muito diferente da que é hoje, devido às referências de lugares, pessoas, marcas de carro, entre outros, que o autor faz em seu escrito. E talvez isso dê um pouco de trabalho, pois serão necessárias algumas idas ao google ou aos livros de história.


É uma leitura interessante, que nos faz refletir sobre os limites entre ficção e realidade. O autor procurou equilibrar esse duplo de forma leve e envolvente. Dessa maneira, “Chico quis inventar-se ao ficcionar a vida. Não é sobre a vida do Chico, trata-se apenas de uma aproximação, a vida inventada que todos nós experimentamos (...)”. 




Resenhado Por Juliane Elesbão

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aninha disse...

interessante, não conhecia o livro. Chico Buarque teve a sensibilidade de fazer um livro onde o equilíbrio entre real e ficção fosse quase imperceptível. tinha que ser ele <3 "...a vida inventada que todos nós experimentamos..." amei isso! com certeza uma leitura diferente e agradável.

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