Resenha: A cor púrpura (Alice Walker)

sábado, 2 de abril de 2016


Vencedor do Prêmio Pulitzer em 1983 e inspiração para a obra-prima cinematográfica homônima dirigida por Steven Spielberg, o romance A cor púrpura retrata a dura vida de Celie, uma mulher negra no sul dos Estados Unidos da primeira metade do século XX. Pobre e praticamente analfabeta, Celie foi abusada, física e psicologicamente, desde a infância pelo padrasto e depois pelo marido. Um universo delicado, no entanto, é construído a partir das cartas que Celie escreve e das experiências de amizade e amor, sobretudo com a inesquecível Shug Avery. Apesar da dramaticidade de seu enredo, A cor púrpura se mostra muito atual e nos faz refletir sobre as relações de amor, ódio e poder, em uma sociedade ainda marcada pelas desigualdades de gêneros, etnias e classes sociais.
A Cor Púrpura
Alice Walker
R$ 37,40 até R$ 46,91
ISBN-13: 9788503010313
ISBN-10: 8503010313
Ano: 2016 / Páginas: 356
Idioma: português 
Editora: José Olympio



A cor púrpura, Alice Walker, Editora José Olympio, é um romance epistolar sobre o papel da mulher negra na sociedade, entre 1900 e 1940, no sul dos Estados Unidos. Publicado em 1982, o romance foi vencedor do prêmio Pulitzer de 1983.

O livro é todo composto por cartas da protagonista Celie para Deus e para sua irmã Nettie, e de Nettie para Celie. Celie nasceu em uma cidade ao sul dos Estados Unidos entre 1900 e 1940, as cartas não são datadas e por este motivo fica um pouco difícil saber ao certo. Celie foi estuprada pelo padrasto desde criança, o fruto desta violência gerou duas crianças que foram tiradas de seus braços. Semianalfabeta, negra e considerada feia, ela foi obrigada a se casar com um viúvo, Albert, à força, apenas para cuidar da casa, do marido e dos filhos dele. Era constantemente abusada física, sexual e moralmente pelo "Sinhô" como ela o chama. 

"Ela é feia. Ele fala. Mas num istranha o trabalho duro. E é limpa. E Deus já deu um jeito nela. O senhor pode fazer tudo como o senhor quer e ela num vai botar no mundo mais ninguém pro senhor dar de cumer e vistir."

Sua irmã, Nettie, que continuou morando com o pai após Celie se casar, um dia fugiu de casa porque o pai tentou abusar sexualmente dela, e foi embora morar com Celie. O marido de Celie só deixou Nettie ficar porque desde o começo ele queria casar com ela, e não com Celie, porém o pai não deixou. Então ela passa a morar com o casal e aos poucos vai ensinando Celie a ler e escrever algumas palavras. Após o marido de Celie tentar estuprá-la e esta revidar, Nettie é expulsa da casa da irmã e Albert diz que elas nunca terão notícias uma da outra. Embora Nettie escreva muitas cartas para a irmã, Celie nunca recebeu nenhuma. Até um certo dia. 

A ligação entre Celie e Nettie é tão forte que você quase pode sentir o amor entre as irmãs saltando do papel. Quando a protagonista começa a receber as cartas de sua irmã, descobre o que aconteceu de fato e como sua irmã está vivendo como missionária na África, e que está com seus dois filhos, Adam e Olivia, que tinham sido dados para adoção para o reverendo e sua esposa. Vale lembrar que o amor entre mulheres naquela época, mesmo sem interesse romântico, como entre as irmãs, era considerado abominável. 

A chegada de Shug Avery, uma sensual e muito à frente de seu tempo, cantora de blues por quem Albert sempre foi apaixonado, muda a vida de Celie. Enquanto Albert "montava nela" todas as noites ela olhava para a foto de Shug na cabeceira da cama, imaginando que Albert já tinha feito aquilo com a cantora e que esta tenha até gostado. Celie ficava imaginando como Shug seria na realidade e uma de suas maiores vontades era de ao menos pôr os olhos em Shug Avery. A protagonista se torna amiga de Shug e cuida muito bem desta quando Albert a traz, muito doente, para sua casa. E só, somente só, quando Shug está na casa deles, Celie não apanha. 

As cartas de Celie são bem difíceis de entender no início, pois a escrita retrata tal qual o grau de instrução da protagonista. Ela é semianalfabeta e é óbvio que as cartas estão muitas vezes com períodos desconexos e contém muitos erros de grafia e coerência. Ela começa a falar de uma coisa e depois coloca outro assunto no meio, o que pode acabar confundindo um pouco o leitor mais desatento. Já as cartas de Nettie são bem escritas e certinhas, pois esta tem um certo grau de instrução. Nettie teve muita sorte, a verdade é esta. Mesmo expulsa da casa de Albert e Celie, ela foi acolhida pela família do reverendo e sempre fora tratada como da família. 

Bom, acho que não preciso falar mais nada do enredo pois os parágrafos anteriores já deixam bem claro o assunto abordado aqui neste romance. As mulheres que tinham opinião própria e se recusavam a fazer o que os homens mandavam eram taxadas de loucas, perigosas ou mulheres da vida. Homem que não batesse na mulher para mostrar que era ele quem mandava não era considerado macho, era fraco. Os pais criavam os filhos ensinando que a mulher era para ser tratada como objeto e há inclusive uma comparação entre uma mulher e uma criança: Nada como uma boa surra para elas aprenderem quem é que manda. 

Este livro fala de preconceito racial, violência sexual, a opressão da mulher e sua sexualidade, e ao mesmo tempo fala da liberdade e da quebra de diversos paradigmas. A evolução de Celie ao longo da narrativa é notória e arrebatadora. Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, Celie não é fraca por suportar todas as agressões que sofre ao longo da vida, ela é uma das protagonistas mais fortes que já tive o prazer de conhecer, a melhor palavra para defini-la é: resiliente. Celie foi capaz de suportar as piores atrocidades contra seu corpo e sua moral e mesmo assim se manteve inabalável e nunca perdeu a esperança.

Quando percebe a força que tem, Celie muda sua forma de agir, causando espanto em muitos, principalmente em Albert, que não acreditava que ela conseguiria viver sem ele. Shug Avery e Sofia, são duas personagens encantadoras e que tiveram suma importância no processo de autoconhecimento e mudança de comportamento de Celie, e que mostraram que mesmo em 1920 já existia feminismo e empoderamento feminino. A leitura deste livro proporciona ao leitor um turbilhão de emoções e sentimentos. Para mim, mulher, foi difícil ler e não me imaginar vivendo naquele contexto. Foi difícil ler e não sentir raiva, nojo, medo, dor. 

A cor púrpura tornou-se um clássico e não é por acaso. Seu tema, em minha opinião, é atemporal. Machismo sempre existiu e sempre vai existir. Embora as mulheres tenham conquistado muitas coisas, tantas outras ainda precisam ser conquistadas. Recomendo a leitura deste livro para as pessoas interessadas em feminismo, empoderamento feminino, liberdade sexual x opressão sexual, etc. A cor púrpura está em sua 10ª edição e ganhou uma capa nova em 2016. Não tive oportunidade de ler o original, em inglês, mas imagino que a tradução deva estar muito boa pois os tradutores tiveram o cuidado de não descaracterizar a sua protagonista e principal narradora. Maravilhoso. É um livro que DEVE ser lido e está na estante ao lado de O sol é para todos e A resposta, e sim, virou um favorito! 

"Eu acho que Deus deve ficar fora de si se você passa pela cor púrpura num campo qualquer e nem repara." 

O livro foi adaptado para o cinema em 1985 e tem ninguém menos que Whoopi Goldberg no papel de Celie, Oprah Winfrey no papel de Sofia, e direção de Steven Spielberg. Acho que agora você não precisa de mais nenhum incentivo para parar tudo o que estiver fazendo e ler já este livro ou ver o filme, não é? 


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