Resenha: Missoula (Jon Krakauer)

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Missoula
Estupro e justiça numa cidade universitária
Jon Krakauer
 R$ 47,90 até R$ 49,12
ISBN-13: 9788535926996
ISBN-10: 8535926992
Ano: 2016 / Páginas: 488
Idioma: português
Editora: Companhia das Letras

Missoula, em Montana, é uma típica cidade universitária americana. Para quem vê de fora, o local é algo idílico. No entanto, entre 2008 e 2012, o departamento de justiça americano investigou 350 acusações de agressão sexual na cidade, muitas perpetradas pelos jogadores do time local de futebol americano, idolatrados pela população. Neste livro assombroso, Jon Krakauer rompe o silêncio e mostra todo o drama que vivem essas mulheres. Numa investigação minuciosa, com ares de thriller jurídico, ele revela o tecido social e político que abafa esses casos. De forma corajosa, Krakauer questiona o sistema educacional e os caminhos legais que permitem essa epidemia de violência sexual.


Esse foi o segundo livro do Jon Krakauer que eu li e, assim como o primeiro, Na natureza selvagem, é um apanhado de relatos e entrevistas. No caso de Na natureza selvagem, com pessoas que tiveram contato com Chris McCandless. Caso você queira ler a minha resenha de Na natureza selvagem, clique aqui

Em Missoula temos uma história diferente. Este livro segue o mesmo estilo dos livros anteriores de Krakauer, é um livro jornalístico, o que torna sua leitura bem atrativa, didática e fluída. O livro é sobre estupro e justiça numa cidade universitária. Krakauer coletou entrevistas, depoimentos, etc, sobre uma epidemia de estupros que aconteceram em Missoula, uma cidade no interior de Montana, nos Estados Unidos. Missoula ficou conhecida como a capital do estupro, pois entre 2008 e 2012 foram registrados mais de 350 acusações de agressões sexuais na cidade. Infelizmente poucos casos foram tratados com a devida importância pela polícia e autoridades.

Eu comecei a ler este livro e pouco tempo depois veio a público o caso da menina que foi estuprada por 33 homens no Rio de Janeiro. Muitos a julgaram, dizendo que a culpa era dela, que ela resolveu ir lá, que foi consensual. Enfim, como sempre, todos tentam culpabilizar a vítima. Coincidência ou não, eu já queria ler este livro desde que ele fora lançado nos Estados Unidos, porém esperei ser lançado no Brasil. Comecei a ler numa fila e quando menos percebi já tinha lido 90 páginas de tão envolvente que são as histórias. Envolventes e tristes. Causam dor, angústia, raiva, revolta e muitos outros sentimentos desse tipo. Quando se é mulher, é difícil ler algo sobre agressão sexual e estupro e não se emocionar, não chorar, não se colocar no lugar da pessoa que viveu aquele terror. 

"Podemos todos finalmente concordar que as mulheres querem fazer sexo. Retratadas de forma variada no passado como domadoras de homens e cuidadoras de crianças, somos hoje consideradas bem-dotadas de tesão. Mas será que isso significa que sentimos desejo da mesma forma que os homens? Meu desejo me diz que não. O meu, confesso, não é cego ou monumental ou animal. Ele vem com um interminável monólogo interior - ou talvez diálogo, ou talvez babel. O meu desejo está sempre supondo, com frequência repensando sua suposição. O desejo feminino é uma força poderosa, porém surge na forma de uma interrogação, e não de uma afirmação. Não um 'eu quero isso', mas 'será que eu quero isso?' 'O que exatamente eu quero?' 'E neste momento?' 'E agora?'" - Claire Dederer - Why is it so hard for women to write about sex?

Em 2012 houveram alguns escândalos envolvendo jogadores de futebol do conceituado time da cidade, o Grizzly. Krakauer entrevistou algumas meninas que foram vítimas de estupro em Missoula e destrinchou cada detalhe, de cada entrevista, depoimento, gravação, e nos presenteou com este livro incrivelmente poderoso e capaz de mudar a visão e a discussão sobre o tema, que em pleno século XXI ainda é tabu. 

Jon destaca alguns casos como o de Allison Huguet, que foi estuprada por seu amigo de infância, Beau Donaldson, quarterback do Grizzly, importante time de futebol da cidade. Como Beau, que conhecia Allison desde que eram crianças, muitos casos de estupro que se tem conhecimento, são praticados por pessoas que a vítima conhece, que confia e que acha que nunca lhe fará mal. Allison conseguiu fugir, foi ao hospital e pediu um kit de estupro, mas não foi à polícia num primeiro momento. Allison não queria denunciar Beau à polícia pois apesar do que ele lhe fizera, ela acreditava que ele podia mudar, poderia procurar ajuda. Allison foi muito corajosa e conseguiu, em sua própria casa, gravar a confissão de Beau e disse que se ele prometesse procurar ajuda não o denunciaria, mas que se ela soubesse de alguma outra coisa do tipo, ele seria preso. O rapaz chorou e disse que não faria mais isso e que estava muito arrependido. Mal sabia Allison que ela não foi a primeira vítima de Beau. 

Kelsey Belnap, outra moça que foi vítima de um estupro (coletivo!) por jogadores do Grizzly, conta sua história e como ela achou que a culpa era dela, por ter bebido demais. É incrível como a sociedade sempre tenta culpar a vítima. Jon Krakauer tenta mostrar que a culpa nunca é da vítima. Ela pode estar bêbada ou estar vestida da maneira que ela quiser, ela só vai ser estuprada se alguém decidir estuprá-la. Quem deve ser responsabilizado é o agressor, e não a vítima. Infelizmente, 80% dos casos de estupro não são nem sequer reportados à polícia, pois as vítimas ainda tem vergonha e medo de falar. 

Chorei em diversos momentos do livro e chorei ainda mais por saber que são histórias reais. Procurando no youtube pude conhecer seus rostos, pude ver suas lágrimas de medo e de vergonha. Krakauer encoraja através do livro, a nós mulheres, principalmente, a romper o silêncio e colocar a boca no trombone. Nos encoraja a não aceitar o que a sociedade nos impõe. Nós não merecemos ser estupradas, nós merecemos ser respeitadas. 

Acho que todo mundo deveria ler esse livro, principalmente os homens que ficam com mimimi nas redes sociais de que "nem todo homem é um estuprador em potencial". Imagine uma mulher que foi estuprada pelo próprio pai ou primo ou melhor amigo de infância, você acha que ela não vai te ver como um estuprador em potencial? Acorda! 

A edição da Companhia das letras está impecável, assim como a revisão. A capa remete à thrillers jurídicos, e se você gosta deste tipo de livro, pode ler sem medo. Apesar de ser um livro jornalístico, Jon Krakauer tem o dom de contar histórias verdadeiras como se fossem ficção e ainda assim respeitar os envolvidos. Recomendo demais!!! 

"Bem, devemos tratar as mulheres como sujeitos independentes, responsáveis por si mesmas? É claro. Mas ser responsável não tem nada a ver com ser estuprada. As mulheres não são estupradas porque estavam bebendo ou porque usaram drogas. As mulheres não são estupradas porque não foram cuidadosas o bastante. As mulheres são estupradas porque alguém as estuprou." Jessica Valenti - O mito da pureza.


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