Resenha | Sempre vivemos no castelo (Shirley Jackson)

segunda-feira, 25 de setembro de 2017


Sempre Vivemos No Castelo
Shirley Jackson
R$ 25,13 até R$ 36,90
ISBN-13: 9788556510327
ISBN-10: 8556510329
Ano: 2017 / Páginas: 200
Idioma: português 
Editora: Suma 

Merricat Blackwood vive com a irmã Constance e o tio Julian. Há algum tempo existiam sete membros na família Blackwood, até que uma dose fatal de arsênico colocada no pote de açúcar matou quase todos. Acusada e posteriormente inocentada pelas mortes, Constance volta para a casa da família, onde Merricat a protege da hostilidade dos habitantes da cidade. Os três vivem isolados e felizes, até que o primo Charles resolve fazer uma visita que quebra o frágil equilíbrio encontrado pelas irmãs Blakcwood. Merricat é a única que pressente o iminente perigo desse distúrbio, e fará o que for necessário para proteger Constance. Sempre vivemos no castelo leva o leitor a um labirinto sombrio de medo e suspense, um livro perturbador e perverso, onde o isolamento e a neurose são trabalhados com maestria por Shirley Jackson.


Sempre vivemos no castelo conta a história da Família Blackwood, que foi quase que completamente envenenada e morta por arsênico num pote de açúcar. Os únicos sobreviventes da tragédia foram um tio das garotas, tio Julian, Mary Katherine, que é quem nos conta a história, e Constance, sua irmã mais velha, que foi acusada de ter envenenado a família, embora tenha sido absolvida do crime. A história se passa seis anos após a fatídica noite do assassinato.

Tio Julian ficou inválido após o envenenamento, precisa de cuidados o tempo todo, e Constance tem agorafobia, ela não deixa nunca a propriedade em que eles moram, logo, é Merricat quem tem que resolver qualquer coisa que eles precisem no vilarejo, pois elas moram em uma mansão que fica relativamente isolada da cidade. Toda vez que ela precisa ir ao vilarejo sente os olhares de ódio e ouve os comentários e as piadas que os habitantes da cidade desferem contra ela e sua família. É muito mais que um bullying, é um ódio em massa. Todas as vezes é tudo igual, e todas as vezes ela imagina como se aquela ida ao centro fosse um jogo onde os locais são obstáculos com objetivos e no final todos vão estar mortos e ela vai triunfar sobre os corpos de todos da cidade. 

As irmãs Blackwood são maltratadas pelas pessoas do vilarejo desde antes da tragédia, e depois do acontecido a coisa só piorou. Sempre houve esse sentimento de hostilidade por parte de todos, tanto da família para com os outros moradores como o contrário também, pois a família Blackwood sempre foi abastada, vivendo numa propriedade que tinha um rio, um pomar, horta e tudo o mais e sendo cercado, impedindo que os moradores da vila tivessem acesso. 

"Gostaria de entrar no mercado uma manhã e ver todos eles, até os Elbert e as crianças, deitadas ali, chorando de dor e agonizando. Então pegaria os produtos por conta própria, imaginei, pisando em seus corpos, tirando o que quisesse das prateleiras, e iria para casa, talvez com um chute na sra. Donell, ali deitada. Nunca sentia remorso quando tinha pensamentos como esse: só queria que se tornassem verdade." p. 17

Mary Katherine, ou Merricat, é uma garota de dezoito anos com comportamento e personalidade muito excêntricos. Ela tem dezoito anos mas a sua mente, suas atitudes e sua personalidade ainda condizem com as da garota de doze anos que estava de castigo na noite do envenenamento. Ela é quem narra a história em primeira pessoa. Logo no início conseguimos notar que Merricat não é uma pessoa totalmente normal, ela tem uma espécie de TOC, que é manter a rotina da família altamente imperturbável, tudo deve ser exatamente igual, sempre. Além de manias peculiares como enterrar coisas no quintal, pendurar objetos em árvores e checar a cerca que isola a propriedade, isso dá a ela uma enorme sensação de segurança, de que tudo está como deveria, então está tudo bem. E quando algo não acontece como deveria, as coisas ficam bem confusas. E depois que um primo distante, Charles, aparece para uma visita indesejada as coisas saem mais ainda do controle. 

Acompanhar a mente de Mary Katherine é um verdadeiro desafio. A narrativa não é confiável e é bem confusa, por isso acho que esse livro não tem meio termo, ou você adora ou você detesta. Eu confesso que tinha muita expectativa e esperava coisas incríveis com muitas reviravoltas, mas o que encontrei foi a forma ardilosa com que uma garota de dezoito anos manipula sua irmã, impedindo de que esta consiga seguir com a sua vida e tentar escapar da bolha em que elas vivem. Merricat é extremamente avessa à mudanças e a qualquer coisa que penetre sua zona de conforto. 

Comecei o livro e estava gostando muito do que tava lendo, li logo umas sessenta páginas no shopping, enquanto esperava um amigo que estava atrasado para uma sessão de cinema. Depois as coisas foram ficando mais confusas e aí eu percebi que a narradora não era confiável, então fiquei mais instigada ainda a entender o funcionamento da mente de Merricat e como iria se desenrolar a história das irmãs Blackwood. As garotas pararam no tempo, é interessante ver como depois que você percebe isso, consegue fazer a analogia com o título do livro, que até então não fazia muito sentido, como muitas coisas desta história vão parecer que não fazem o menor sentido para o leitor. 

Gostei muito da história, a "grande revelação" não foi surpresa pra mim e acredito que não seja pra ninguém, pois tudo foi sendo exposto de forma bem gradual para quando tudo realmente fosse dito você só faça ligar os pontos. A escrita da Shirley é ágil e este livro é diferente de tudo que eu já li. Achei muito original e super bem escrito, com personagens que vão de carismáticos a asquerosos, principalmente a Merricat, que você consegue ao mesmo tempo sentir medo porque ela é claramente uma sociopata, e uma certa pena pelos problemas psicológicos que a garota tem. Enfim, recomendo demais a leitura, mas já vou avisando, talvez ler uma só vez não baste, tem muita coisa nas entrelinhas, um dia quero reler Sempre vivemos no castelo. 


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