Resenha | Os crimes da rua Morgue e outras histórias extraordinárias (Edgar Allan Poe)

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Os Crimes da Rua Morgue
E Outras Histórias Extraordinárias
Edgar Allan Poe
R$ 17,60 até R$ 29,90
ISBN-13: 9788568263570
ISBN-10: 8568263577
Ano: 2017 / Páginas: 224
Idioma: português 
Editora: Rocco

Com “Os crimes da rua Morgue”, Edgar Allan Poe inaugurou, em 1841, a moderna literatura policial e criou um de seus mais célebres detetives, o até hoje reverenciado Auguste Dupin. O conto, que narra a memorável investigação do assassinato de duas mulheres em um quarto fechado, é o carro-chefe desta reunião de histórias de terror e mistério traduzida por ninguém menos que Clarice Lispector. Grande leitora e fã da literatura policial, a escritora, que também verteu para o português os livros de Agatha Christie sob o pseudônimo de Mary Westmacott, empresta seu talento invulgar ao gênio de Poe, trazendo para o leitor brasileiro histórias como “A máscara da morte rubra”, “O gato preto”, “Ligeia” e outras. Lançamento do selo Fantástica Rocco, esta edição de Os crimes da rua Morgue e outras histórias extraordinárias recupera este encontro, literalmente, fantástico.

Falar de Edgar Allan Poe não é muito difícil. Não é à toa que ele é um clássico. Edgar Allan Poe é considerado o pai do gênero policial. Um dos primeiros contistas americanos, foi o primeiro a tentar ganhar a vida como autor, o que resultou numa vida financeira pra lá de difícil, Poe vivia na pindaíba e se embriagando por aí. Até que morreu, em 1849, segundo o que li, uma das possíveis causas de sua morte foi a bebida. 

Ele se dedicou ao gênero terror, apostando no sobrenatural, macabro e gótico. O conto que me fez virar fã de Poe foi O CORAÇÃO DELATOR, que aqui nesta adaptação de Clarice Lispector, chama-se O CORAÇÃO DENUNCIADOR.  

Antes de pegar esta edição eu já tinha lido todos estes contos antes, a maioria na faculdade de Letras. Não vou me estender a todos os contos pois a resenha ficaria imensa e vocês iriam querer me bater. Vou focar apenas em três histórias que eu altamente recomendo para qualquer pessoa que nunca leu nada de Edgar Allan Poe. Depois destas, se você for um apreciador de boas histórias, obviamente, tenho certeza de que lerá tudo que encontrar de Poe por aí. 

Preciso começar dizendo que só um gênio poderia escrever um texto que iria chocar a muitos e causar catarse a tantos outros, e depois escreveria um ensaio autopsiando este texto minuciosamente, e ensinando como escrever um texto para emocionar o leitor. É o que ele fez em A filosofia da composição. Ele simplesmente descreveu seu método de escrita em O CORVO, onde afirma que o escritor deve calcular todas as ideias e sentimentos. Este texto é maravilhoso. Se você ficou curioso, dá um google aí que tem disponível online. 

Mas voltemos ao livro. O primeiro conto é um dos melhores e mais maravilhosos que já li. Um pouco perturbador, é claro, mas falando em Edgar Allan Poe isso não é novidade. Fantástico, no sentido literal da palavra. O gato preto fala sobre um homem que tinha um gato chamado plutão e uma noite, embriagado, com uma raiva inexplicável do gato, arranca-lhe um olho. Após o animal se curar, em outro acesso de raiva o homem enforca o gato e pendura numa árvore. Uns dias depois ele está numa taverna e dá de cara com um gato bem parecido com o seu, a culpa o consome e ele decide levar este gato pra casa. Logo sua esposa se encanta pelo gato e ao mesmo tempo, a antipatia do homem cresce. Ele tenta matar o gato novamente mas acaba acertando sua mulher com um machado no meio da cabeça. O final não vou revelar, mesmo sendo um conto super antigo, sempre penso que alguém ainda não leu. O final é sensacional. 

Outro conto absurdamente perturbador é Os dentes de Berenice. O conto fala sobre um homem, Egeu, que está prestes a se casar com sua prima Berenice. Egeu tem tipo uns períodos onde ele meio que alucina e fica "fora do ar", o que ele chama de "períodos de intensidade do interesse", que é tipo um interesse obsessivo sobre qualquer coisa, um objeto, uma mancha, uma chama, qualquer coisa mesmo. Apenas uma sombra era capaz de prender o interesse de Egeu por horas a fio, deixando-o paralisado. Berenice fica doente e a única parte do seu corpo que ainda é saudável são seus dentes. E então, Egeu desenvolve a monomania pelos dentes da moça. A moça morre e é enterrada. Então, um criado acorda Egeu e avisa que o túmulo de sua noiva foi profanado. O final vocês devem imaginar, mas eu não vou contar. Gente, esse conto é bizarro. Aqui no livro todos os contos foram beeeeem suavizados por Clarice, pois os originais são bem sinistros. 

O último conto que vou falar um pouco é sobre o meu favorito, O coração denunciador. Fala sobre um homem que trabalhava para um velho que tinha um olho azul que era envolto por uma membrana que deixava a cor diferente do outro olho. Segundo o narrador, este não tem nome, como quase nenhum dos narradores dos contos de Poe, o velho nunca lhe fizera mal nenhum. Entretanto, o narrador, que não é nem um pouco confiável (nenhuma novidade!) nutre uma verdadeira abominação pelo olho do velho. PELO OLHO. Em uma noite ele adentra o quarto do velho e o mata. Ele esquarteja o cadáver do velho e esconde sob o assoalho. No outro dia, o sumiço do velho é notado e a polícia segue até a casa para investigar. Tudo parece perfeito. Seria um crime perfeito... Se não fosse por um detalhe. Você já deve aí estar imaginando o que, e mais uma vez, não vou revelar o final! 

Gente, os contos são maravilhosos e nesta versão de Clarice, posso indicar até pra quem tem curiosidade mas tem um leve medinho. Essa versão é bem tranquila e dá até para os mais medrosos lerem. É comum os narradores de Poe não serem nomeados, serem meio loucos, e desconfiados. É uma característica muito comum, e neste conto em especial, O coração denunciador, é interessante a  maneira como o narrador conversa conosco e como conta sua história como se ele fosse inocente, fazendo o possível para nos convencer da crueldade do olho do velho. Sensacional. 

Enfim, o livro é perfeito! Amei do começo ao posfácio! Recomendo que leiam também os contos: A queda da casa de Usher, A máscara da morte rubra (massa!!!), Os crimes da rua Morgue, O retrato oval e O barril de Amontillado. São contos que eu gosto muito e recomendo fortemente a leitura. 

A edição da Rocco tá linda demais, com o título metalizado, cada começo de conto é separado por uma página preta e uma ilustração de um osso do corpo humano. A diagramação está toda diferenciada, bem cuidada e a revisão, impecável. Não curto muito folhas brancas mas acho que foi a melhor escolha mesmo para este livro, que ficou LINDO. Recomendo demais!!! Leiam!!! 

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