Resenha | Todo dia a mesma noite: A história não contada da Boate Kiss (Daniela Arbex)

Todo dia a mesma noite
A história não contada da Boate Kiss
Daniela Arbex
R$ 24,00 até R$ 27,40
ISBN-13: 9788551002858
ISBN-10: 8551002856
Ano: 2018 / Páginas: 248
Idioma: português 
Editora: Intrínseca
Reportagem definitiva sobre a tragédia que abateu a cidade de Santa Maria em 2013 relembra e homenageia os 242 mortos no incêndio da Boate Kiss.
Daniela Arbex reafirma seu lugar como uma das jornalistas mais relevantes do país, veterana em reportagens de fôlego - premiada por duas vezes com o prêmio Jabuti - ao reconstituir de maneira sensível e inédita os eventos da madrugada de 27 de janeiro de 2013, quando a cidade de Santa Maria perdeu de uma só vez 242 vidas.



Terminei este livro há exatamente uma semana e ainda não me sinto totalmente pronta pra falar sobre ele. Todo dia a mesma noite é um lançamento de 2018 da Intrínseca, que tá indo muito bem obrigada em seu catálogo de não-ficção.

Assim que eu soube do lançamento do livro, através das redes sociais da Editora, já fiquei com vontade de ler. E sabendo que foi escrito pela Daniela Arbex então, já sabia que seria incrível, que mulher!!!! Já li dela outro livro tão sofrido quanto este, Holocausto Brasileiro, e já sabia que o livro seria bom, seria real e mesmo sendo um relato jornalístico, seria sensível. Daniela sabe como nos comover sem fazer sensacionalismo. 

A história não contada da boate Kiss traz centenas de depoimentos de sobreviventes, familiares das vítimas, profissionais de saúde e segurança, e pessoas que de alguma forma foram afetadas pela tragédia sem precedentes que aconteceu no dia 27 de janeiro de 2013. Lembro que naquela manhã de domingo logo que liguei a TV, em todos os canais se falava sobre a tragédia que ceifara precocemente 242 vidas inocentes. Apesar de estar fisicamente a milhares de quilômetros do local e não conhecer ninguém que estava lá, chorei, chorei muito e sofri com a cada atualização do número de mortos. Lembro como se fosse hoje, o tanto de reportagens sensacionalistas, pessoas que claramente só queriam se promover, se aproveitando da dor de outras.

Todos sabemos quem foram os culpados, ficou mais do que claro, mas o que aconteceu com essas pessoas? Nada. Já são cinco anos de impunidade. Daniela veio com este livro para nos lembrar que este crime ainda está impune. E também trouxe esta obra para fazer com que jamais esqueçamos das 242 vítimas jovens, com um futuro brilhante pela frente, que deixaram pais, mães, filhos, etc., com um buraco em seus corações que jamais conseguirão preencher. 

Uma das coisas mais interessantes desta obra é que pela primeira vez temos acesso à perspectiva dos profissionais que tiveram que lidar com a tragédia. Em se tratando de desastres com sobreviventes nós sempre focamos em ouvir o lado deles, óbvio, e também de seus familiares, e de familiares de pessoas que não sobreviveram. Mas e o lado dos profissionais? Ninguém se preocupa em ouvi-los. Isso porque não costumamos pensar neles como humanos, como pessoas que tem sentimentos. Já pensou ter que identificar seu próprio filho dentre as vítimas, e mesmo assim teve que continuar atendendo o máximo de pessoas que conseguir?

Foi muito emocionante e sofrido ler os relatos dos bombeiros, das enfermeiras, policiais, médicos, e outros profissionais que tiveram que se manter firmes em um dos piores momentos de suas vidas - senão o pior. E foi doloroso saber que a maioria esmagadora dessas pessoas até hoje não conseguiu superar o acontecido e permanecem em tratamento psiquiátrico. 

Diante da pilha de corpos, o sargento sentiu as forças de seus braços esvaírem. [...] Nenhum treinamento o havia preparado para lidar com a dor que sentiu no momento em que se viu tomado pelo mais humano dos sentimentos: a compaixão.
Outra parte que me chocou e me provocou muita raiva foi saber que a boate Kiss funcionou durante 41 meses e nunca esteve plenamente dentro da legalidade. Saber disso é saber que muita gente tem culpa nessa tragédia, não somente os empresários donos do local, mas toda a gente que ajudou a manter o local aberto durante tanto tempo mesmo sabendo de todas as irregularidades. 

Na prática, a Kiss ficou aberta durante 41 meses e 27 dias. Nesse período, por 31 meses, funcionou sem o Alvará Sanitário, incluindo o dia da tragédia. Por vinte meses, funcionou sem a Licença de Operação Ambiental. Por dezessete meses, funcionou sem o Alvará de Prevenção e Proteção Contra Incêndio. Por sete meses, funcionou sem o Alvará de Localização.

Daniela também fala sobre o processo que alguns pais de vítimas sofreram, pelo Ministério Público, que foi uma das coisas que eu mais me revoltei, a falta de caixões para enterrar as vítimas e o superfaturamento no preço dos caixões e das sepulturas, a dificuldade e a dor de ter que embarcar o corpo de um jovem que estava na cidade a passeio, entre outros capítulos arrasadores, no sentido literal da palavra. 

Este livro é um memorial, uma verdadeira dose de empatia. Uma forma de homenagear as 242 vítimas daquela noite tenebrosa e fazer com que elas jamais sejam esquecidas. Eu sei que em se tratando de um relato jornalístico, muita gente pode pensar que é sensacionalista, que é mais uma jornalista caça-níquel, se aproveitando do aniversário da tragédia para se promover. Gente, eu garanto que NÃO. Daniela trata com muito respeito tanto as vítimas, seus familiares, quanto os profissionais e todas as pessoas que foram afetados direta ou indiretamente pela tragédia. É um livro emocionante do começo ao fim, chorei da primeira à última página. Recomendo muito para quem gosta de não-ficção e relatos jornalísticos. A linguagem da Daniela é super acessível, o livro é, entre aspas, "fácil" de ler. Muito muito sofrido.










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Um comentário

  1. Oi Dana, tudo bem? Eu não li o livro e honestamente não sei se teria coragem de realizar a leitura. Essa tragédia foi tão impactante, tão dolorosa que só de pensar no assunto, me emociono.
    Amei sua resenha, parabéns!
    Bjkas

    http://www.acordeicomvontadedeler.com/

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